30 de dezembro de 2009

Os Parasitas


Quando vires alguém com ares de iluminado
bem vestido e com odores , cheirando a falso
Sapatos engraxados e bem engravatado
Bem falante, extrovertido, mas oxidado...

Paracismeiro, gentil de mais, subserviente
Acomodado, mas oferecido até à exaustão
E um sorriso forçado estiver sempre presente
Cuidado meu amigo! Diz-lhe sempre NÃO!

E se oferecer seus serviços, parecendo de graça
E se queser impingir um negócio ou um leilão
Finge que aceitas, mas expulsa-o de casa
Fecha-lhe as portas dizendo-lhe, NÃO!

Eu tenho para mim que estes grandes farsantes
Que se esforçam de mais para dar nas vistas
Nem para o céu iria com tamanhos pedantes
Pois não passam de perigosos e fieis parasitas.

Manuel António Amendoeira

28 de dezembro de 2009

Eu canto


Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Irmã das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento

Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço, ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa rimada.
E um dia sei que estarei muda:
- mais nada.

Cecília Meireles

27 de dezembro de 2009

Estás Só


Estás Só

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Ricardo Reis

25 de dezembro de 2009

Dia de Natal


Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

22 de dezembro de 2009

Natal Chique


NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

20 de dezembro de 2009

Retalhos Da Vida De Um Médico





Retalhos Da Vida De Um Médico

Serras, veredas, atalhos,
Estradas e fragas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento

Retalhos fundos nos rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
Retalha as caras fechadas

O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde

Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão

As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São lágrimas que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste

E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade

Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina

Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não segura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura

"Ary Dos Santos"

17 de dezembro de 2009

Murmura, rio, murmura (Fado das Três Horas)

Murmura, rio, murmura


É doce o teu murmurar;
Que tristeza, que ternura,
Tu tens no teu soluçar.

Pela calada da noite,
Enquanto não surge a aurora,
Qu’esta minh’alma se afoite,
Suspira, guitarra, chora!

Voga, barco, mansamente,
Pelas águas prateadas,
Leva este canto dolente,
Aos peitos das namoradas!

Cada nota tão sentida,
Que a minha guitarra envia,
É uma canção dolorida,
D’amor e melancolia.

E estas canções eu trago-as
Presas nas asas da brisa,
Para espalhar sobre as águas,
Enquanto o barco desliza!...

Bráulio Caldas - 1887

14 de dezembro de 2009

A um poeta



A um poeta

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental

12 de dezembro de 2009

Onde vais?


Onde vais, Portugal, que em minha juventude
Eu tanto amei, ao recordar nossos avós,
Que, feitos de coragem, pelo mar atroz,
Percorreram o mundo em toda a latitude?!

Suas gestas sem par, plenas de virtude,
Voaram pela Terra cantadas na voz
De inspirados poetas, cujo eco veloz
Venceu espaço e tempo em sua magnitude.

Hoje, porém, quantos filhos tentam esquecer
Será ousado sonhar de indómito querer
Vivendo num presente flácido, escuro!

Mas pode um Povo, que renega seu passado
E destrói dos avoengos o heróico legado
Construir, por si só, um brilhante futuro?...

Júlio Augusto Massa

10 de dezembro de 2009

Declaração Universal dos Direitos do Homem


Improviso da Alma e do Poeta


Dia a dia o desamor
Quebra o sentido da vida
Sofre-se em segredo
E na incerteza...
Reina a ganância,
A injustiça
O sofrimento, a pobreza
E o medo!

É fácil dizer:
Temos de ser solidários!
Ser… não é fácil?
A vida é tortuosa,
Manhosa
Vai tudo numa pressa.
E na pressa tudo olha
Nada se vê!

Olho! Nada vejo!
Olho! Nada sinto!
Olho! Olho! Olho!
Que vejo?

Vai tudo na pressa
À velocidade do salário.
Vai tudo na pressa
À velocidade do ganho!
E o homem virou máquina,
Computador
Autómato.

Mas… o luar está igual
O céu não mudou!

Mudou a humanidade
Que perdeu a individualidade.
Passámos a ser números,
Peças de inventário.
Desumanidade!

Dia a dia
Caem os valores morais
Perfilam as estatísticas
Dos ganhos:
Ganha a produção:
Ganha-se menos!
Trabalha-se mais:
Ganha-se menos!
Que importa?
Se um homem tem fome?
E se há revolta.
Que importa?
A quem importa?
Importa é o dinheiro
Ser rico,
Virar banqueiro.

Mas… a areia cintila no deserto!
E nem tudo o que brilha é oiro
- Não vedes o céu a irradiar?!

Não! A humanidade não luz:
A sociedade é egoísta,
Prolifera o desamor.
Importa é estar na "berra"
E neste egoísmo nada sobra.
Está quase a bater no fundo!

Estes tempos são difíceis
Só há tempo para o fútil,
Para a notícia brejeira,
Para a asneira
Para a coscuvilhice.
E nesta agitação…
A alma consome
E o corpo mata.

Mas o mar permanece azul!
O melro assobia
O vento vira furacão.

Passou o tempo…
(O tempo passa depressa)
E na pressa
Não há tempo para filhos.
Dos filhos para os avós.
Dos avós para os netos.
Dos meninos para a família!

Volta poesia!
Volta poeta...
Acredita...
Que estamos no Outono,
Mais logo… será Inverno,
Vem aí a Primavera
Tudo será verde… renascido,
E de volta ao lar,
Em redor da lareira
Quando o dia findar,
Os avós,
Os pais
E os netos
Recordarão histórias da vida,
Contadas sem segredos,
(Segredos bem guardados).
E desses segredos
Renascerão
Os gestos colectivos de amor
Repreendidos
E esconjurados
Os actos egoístas
De desamor.

E os meninos
De volta às escolas
(Sem números nas camisolas)
Pintadas a lápis de cor
Vão ter recreios doirados
Em mil e uma aventuras.
E se treparem às arvores,
Subirão à “Torre de Babel”
E todos se entenderão
Na mesma língua.
Porque a terra vai ser paraíso
E os frutos não mais serão proibidos...

Rogério Martins Simões

8 de dezembro de 2009

Paixão ao Luar

Paixão ao Luar

Se eu pudesse juntar as estrelas,
Todas unidinhas no Firmamento,
Ai! que alegria me dava em vê-las,
Escreverem teu nome no momento.

De noite, o céu lindo, todo estrelado,
Não era preciso haver o luar,
O teu nome lá, todo iluminado,
E por debaixo a palavra: AMAR!

Seria lindo arraial, para mim,
Tudo que pedisses, dizia sim
Para eu a noite, não te estragar;

Todas as pessoas a saber ficavam
Como dois corações loucos se amavam
E as estrelas, os quer abençoar!

Fernanda Garcias

6 de dezembro de 2009

Fonte


Fonte

Fonte de água cristalina
água pura benfazeja
capaz de saciar a sede
onde quer que fonte esteja

Tua água pura, corre
por essas terras baldias
és água cristalina bastante
e muitas gentes sacias

sais da fonte, fazes percurso
da sede todos queres mitigar
desaguas no mar, condensas-te
haverás de cair, voltando à mina
para que fonte volte a deitar

"Grapilho" (Pensamentos de Grapilho)

4 de dezembro de 2009

In Memoriam - Vida Sempre


Vida Sempre

Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incomparável do universo.

Casimiro de Brito

3 de dezembro de 2009

Solidão Corrosiva


Solidão Corrosiva


Esses olhares que matam
e desprezam quem os vê.
Solidão devastadora
que me amarra indefesa
e me consome
sem delicadeza ou cuidado.

Passa tudo à nossa frente,
que vida tão demente!
Que sofrimento tão profundo,
quem vem dói e permanece,
tão forte como sempre.

Maria João Tavares

1 de dezembro de 2009

Testamento



Cantado por Teresa Tarouca.


Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara

30 de novembro de 2009

Ao desconcerto do Mundo


Ao desconcerto do Mundo


Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões

28 de novembro de 2009

Pontes entre nós


Pontes entre nós


Eu tenho o tempo
Tu tens o chão
Tens as palavras
Entre a luz
E a escuridão...

Eu tenho a noite
E tu tens a dor
Tens o silêncio
Que por dentro
Sei de cor...

E eu e tu
Perdidos e sós
Amantes distantes
Que nunca caiam
As pontes entre nós...

Eu tenho o medo
Tu tens a paz
Tens a loucura
Que a manhã
Ainda te traz...

Eu tenho a terra
Tu tens as mãos
Tens o desejo
Que bata em nós
Um coração...

E eu e tu
Perdidos e sós
Amantes distantes
Que nunca caiam
As pontes entre nós...

Que nunca caiam
As pontes entre nós!
Que nunca caiam
As pontes entre nós!

Pedro Abrunhosa

26 de novembro de 2009

Solemnia Verba


Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

Antero de Quental

24 de novembro de 2009

Hino à Maternidade


Hino à Maternidade

Todos os botões de rosa que agora despontam
Imaculados
Nas roseiras que despertam do sono invernal
Em centelhas de perfume e de cor
Sem igual
E que irão eclodir em rosas de alegria
Pela Primavera
Eu transformo em poesia

Que te ofereço
Ó jovem e linda mulher
Que em esplendor de amor
Vives a esperança
De florescer
Numa criança
A espera
De ser mãe

E proclamo-te rainha de toda aTerra
Num êxtase de futuro e felicidade
O triunfo da Maternidade

Henrique Pedro

22 de novembro de 2009

Desejos vãos



Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!...

Florbela Espanca

19 de novembro de 2009

Homenagem à Bica de Água Quente


À MEMÓRIA LACRIMOSA DA BICA DA ÁGUA-QUENTE NA LAMEIRA

Ó Bica Augusta, cofre d’águas termais,
Que ha muitos lustros foste construída!
Onde estás? Para onde é que tu fugiste?
Alguém matou-te! Tu não tens já vida!

Áureo tesouro de riqueza imensa,
Herança nossa d’evos já passados:
Nós de ti despojados hoje fomos,
Ao seres preza de leões domados!

A tua veia que tão possante que era,
Jorros vertendo d’água caudalosa,
Foi-te cortada, foi, a pouco e pouco,
Até só gotas lacrimejar chorosa!

E essas gotas, ao findar-te a vida,
Tua face em gelo viu-se orvalhando:
‘Té essas mesmas, sem a dor no peito,
Quais sanguessugas foram-t’as sugando!

Cruéis algozes! Tirania injusta,
Sentenciando assim contra a inocente!
Malvados ferros, que tirastes a vida
A quem saúde dava a toda a gente!

Diversos povos te rendiam preitos;
A muita gente deste enfim saúde:
Agora morta, resta um canto fúnebre
Vibrar saudoso á voz d’um alaúde!

Chorai, chorai - vos peço ó vizelenses;
Chorai vosso porvir no pátrio lar:
Pois que o tesouro, que vizela encerra,
Talvez um dia vê-lo-heis findar!

E se sabeis qual foi o malfeitor...
Quem praticar tal acto mandaria...
Que esfoce a terra para achar a água,
Que jaz sepulta, morta, inerte e fria!

Que um véu de luto vá cobrindo os Banhos,
E deles brote pranto já a correr:
Porque esse pranto, comovendo a «câmara»
Dê providências - cumpra o seu dever !

Sábios químicos! - Recorrei aqui :
Vinde valer ao povo descontente:
Pois se os houvesse nesta pobre terra,
Não morreria a Bica da Água-Quente.

Bráulio Caldas - 1886

18 de novembro de 2009

não sou nada




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Fernando Pessoa

17 de novembro de 2009

Inocência


Inocência

De um lado, a veste; o corpo, do outro lado,
Límpido, nu, intacto, sem defesa...
Mitológico rosto debruçado
Na noite que, por ele, fica acesa!

Se traz os lábios húmidos e lassos
É que a paixão sem mácula ainda o cega
E tatuou na curva de alvos braços
As sete letras da palavra: entrega.

Acre perfume o dessa flor agreste.
Álcool azul o desse verde vinho.
De um lado o corpo; do outro lado, a veste
Como luar deitado no caminho...

Em frente há um pinheiro cismador.
O rio corre, vagaroso ao fundo.
Na estrada ninguém passa... Ai! tanto amor
Sem culpa!
Ai! dos Poetas deste mundo!

Pedro Homem de Mello

16 de novembro de 2009

O Que Há


O Que Há

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos

15 de novembro de 2009

Um Amigo


Um Amigo

Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.

Eduardo Bettencourt Pinto

14 de novembro de 2009

Eu, que sou feio


Eu, que sou feio...

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Cesário Verde

13 de novembro de 2009

A fermosura desta fresca serra


A fermosura desta fresca serra

A fermosura desta fresca serra
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara Natureza
Com tanta variedade nos of'rece,
Me está, senão te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enjoa e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias mor tristeza.

Luís de Camões

11 de novembro de 2009

Partida anunciada... ou partida ansiada!



Partida anunciada... ou partida ansiada!


Estação de S. Bento...
... terminal dos comboios...
... azáfama de passageiros...
... frenesim no entra e sai das carruagens...
... destino almejado ou anunciada partida...

Absorto nos carris da identidade...
... procuro-Te inconscientemente...
... por entre a multidão de rostos sem nome...
... na expectativa de alcançar o brilho do teu olhar...
... absorvendo a atmosfera na esperança de Te respirar...

Última chamada para o exequível destino...
... rumo aos amarelos compartimentos...
por entre passos dispersos no vazio...
... acomodo-me confortavelmente...
... contemplo a difusa paisagem...

... Sigo viagem, esboço um sorriso,
sei que numa próxima paragem vais embarcar...

Helder Magalhães in Na fúria do nós

9 de novembro de 2009

Mundo de criança autista



Mundo de criança autista


Deixa-me entrar no teu mundo
e dizer-te que mais mundo existe
vem comigo sorri
liberta-te desse mundo triste

Vem não tenhas medo dos sons
encanta-me com teu sorriso
vem brinca alegremente
para a renova és preciso

Deixa-me entrar no teu mundo
dizer-te que alguém existe em revolta
por querer entrar em teu mundo
e não lhes abres a porta

Não tenhas medo vem
amparar-te-ei na decisão
liberta-te vem ao meu mundo
une teu ao meu coração

Liberta-te, vem ao meu mundo!

"Grapilho" (Pensamentos de Grapilho)

Neste Longo Exercício de Alma...




Neste Longo Exercício de Alma...


Ciência, amor, sabedoria,
- tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,

vence-se o abismo:
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.

Cecília Meireles (7/11/1901 - 9/11/1964)

8 de novembro de 2009

Aqui estou


Aqui estou


Limpo é o dia lavado pela areia
branca, e gelada no mar roda a espuma,
e nesta desmedida solidão
sustenta-se a luz do meu livre-arbítrio.

Mas este mundo não é o que eu quero.

Pablo Neruda

6 de novembro de 2009

Porque...



Slavonic March de Tchaikovsky (7/05/1940 - 6/11/1893)

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner (6/11/1919 -
2/07/2004)



4 de novembro de 2009

Criança



Criança bela, inocente,
Serás o quê amanhã?
Serás nada, serás gente?
Futuro breve o dirá!...

Quero sentir teu sorriso
Assim, pela vida fora!
Ter tua candura é preciso,
Tal qual como ela é agora.

Como tu tenho que ser,
Se quero um dia viver
No futuro ainda por vir...

Agora, enquanto aqui ando,
Deixa-me ver-te brincando,
Tua alegria sentir!

Jacinto Marques

2 de novembro de 2009

Meditação Anciã


Meditação Anciã

Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus


Ruy Belo

31 de outubro de 2009

Quase um Poema de Amor




Quase um Poema de Amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga

30 de outubro de 2009

Louvor do Aprender



Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o! E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c'os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertold Brecht

29 de outubro de 2009

Relógio da vida



Relógio da vida

Ó relógio do tempo, impiedoso,
Porque corres assim tão velozmente
Levando a nossa vida presunçoso
Num louco tiquetaque friamente?

À dor és insensível, indif'rente,
Pois jamais de ninguém tens piedade,
Num feroz egoísmo impenitente,
Vais destruindo toda a humanidade.

Algemando a alegria e a amargura,
Os teus ponteiros rodam com loucura
Arrastando consigo a nossa sorte.

Bem cruel, afinal, é teu condão:
- De levar toda a vida sem excepção,
Para a garra fatídica da morte.

Ilda Pinto Ribeiro

28 de outubro de 2009

As Palavras



AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

27 de outubro de 2009

De aqui a pouco acaba o dia



"De aqui a pouco acaba o dia"


De aqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria ?
Fosse a que fosse, estava errada.

De aqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para o contar o coração.

E após a noite e irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria ?

Fernando Pessoa

25 de outubro de 2009

não vou por aí



Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou.

- Sei que não vou por aí!


José Régio