30 de novembro de 2009

Ao desconcerto do Mundo


Ao desconcerto do Mundo


Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões

28 de novembro de 2009

Pontes entre nós


Pontes entre nós


Eu tenho o tempo
Tu tens o chão
Tens as palavras
Entre a luz
E a escuridão...

Eu tenho a noite
E tu tens a dor
Tens o silêncio
Que por dentro
Sei de cor...

E eu e tu
Perdidos e sós
Amantes distantes
Que nunca caiam
As pontes entre nós...

Eu tenho o medo
Tu tens a paz
Tens a loucura
Que a manhã
Ainda te traz...

Eu tenho a terra
Tu tens as mãos
Tens o desejo
Que bata em nós
Um coração...

E eu e tu
Perdidos e sós
Amantes distantes
Que nunca caiam
As pontes entre nós...

Que nunca caiam
As pontes entre nós!
Que nunca caiam
As pontes entre nós!

Pedro Abrunhosa

26 de novembro de 2009

Solemnia Verba


Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

Antero de Quental

24 de novembro de 2009

Hino à Maternidade


Hino à Maternidade

Todos os botões de rosa que agora despontam
Imaculados
Nas roseiras que despertam do sono invernal
Em centelhas de perfume e de cor
Sem igual
E que irão eclodir em rosas de alegria
Pela Primavera
Eu transformo em poesia

Que te ofereço
Ó jovem e linda mulher
Que em esplendor de amor
Vives a esperança
De florescer
Numa criança
A espera
De ser mãe

E proclamo-te rainha de toda aTerra
Num êxtase de futuro e felicidade
O triunfo da Maternidade

Henrique Pedro

22 de novembro de 2009

Desejos vãos



Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!

Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!

E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!...

Florbela Espanca

19 de novembro de 2009

Homenagem à Bica de Água Quente


À MEMÓRIA LACRIMOSA DA BICA DA ÁGUA-QUENTE NA LAMEIRA

Ó Bica Augusta, cofre d’águas termais,
Que ha muitos lustros foste construída!
Onde estás? Para onde é que tu fugiste?
Alguém matou-te! Tu não tens já vida!

Áureo tesouro de riqueza imensa,
Herança nossa d’evos já passados:
Nós de ti despojados hoje fomos,
Ao seres preza de leões domados!

A tua veia que tão possante que era,
Jorros vertendo d’água caudalosa,
Foi-te cortada, foi, a pouco e pouco,
Até só gotas lacrimejar chorosa!

E essas gotas, ao findar-te a vida,
Tua face em gelo viu-se orvalhando:
‘Té essas mesmas, sem a dor no peito,
Quais sanguessugas foram-t’as sugando!

Cruéis algozes! Tirania injusta,
Sentenciando assim contra a inocente!
Malvados ferros, que tirastes a vida
A quem saúde dava a toda a gente!

Diversos povos te rendiam preitos;
A muita gente deste enfim saúde:
Agora morta, resta um canto fúnebre
Vibrar saudoso á voz d’um alaúde!

Chorai, chorai - vos peço ó vizelenses;
Chorai vosso porvir no pátrio lar:
Pois que o tesouro, que vizela encerra,
Talvez um dia vê-lo-heis findar!

E se sabeis qual foi o malfeitor...
Quem praticar tal acto mandaria...
Que esfoce a terra para achar a água,
Que jaz sepulta, morta, inerte e fria!

Que um véu de luto vá cobrindo os Banhos,
E deles brote pranto já a correr:
Porque esse pranto, comovendo a «câmara»
Dê providências - cumpra o seu dever !

Sábios químicos! - Recorrei aqui :
Vinde valer ao povo descontente:
Pois se os houvesse nesta pobre terra,
Não morreria a Bica da Água-Quente.

Bráulio Caldas - 1886

18 de novembro de 2009

não sou nada




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Fernando Pessoa

17 de novembro de 2009

Inocência


Inocência

De um lado, a veste; o corpo, do outro lado,
Límpido, nu, intacto, sem defesa...
Mitológico rosto debruçado
Na noite que, por ele, fica acesa!

Se traz os lábios húmidos e lassos
É que a paixão sem mácula ainda o cega
E tatuou na curva de alvos braços
As sete letras da palavra: entrega.

Acre perfume o dessa flor agreste.
Álcool azul o desse verde vinho.
De um lado o corpo; do outro lado, a veste
Como luar deitado no caminho...

Em frente há um pinheiro cismador.
O rio corre, vagaroso ao fundo.
Na estrada ninguém passa... Ai! tanto amor
Sem culpa!
Ai! dos Poetas deste mundo!

Pedro Homem de Mello

16 de novembro de 2009

O Que Há


O Que Há

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos

15 de novembro de 2009

Um Amigo


Um Amigo

Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.

Eduardo Bettencourt Pinto

14 de novembro de 2009

Eu, que sou feio


Eu, que sou feio...

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Cesário Verde

13 de novembro de 2009

A fermosura desta fresca serra


A fermosura desta fresca serra

A fermosura desta fresca serra
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara Natureza
Com tanta variedade nos of'rece,
Me está, senão te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enjoa e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias mor tristeza.

Luís de Camões

11 de novembro de 2009

Partida anunciada... ou partida ansiada!



Partida anunciada... ou partida ansiada!


Estação de S. Bento...
... terminal dos comboios...
... azáfama de passageiros...
... frenesim no entra e sai das carruagens...
... destino almejado ou anunciada partida...

Absorto nos carris da identidade...
... procuro-Te inconscientemente...
... por entre a multidão de rostos sem nome...
... na expectativa de alcançar o brilho do teu olhar...
... absorvendo a atmosfera na esperança de Te respirar...

Última chamada para o exequível destino...
... rumo aos amarelos compartimentos...
por entre passos dispersos no vazio...
... acomodo-me confortavelmente...
... contemplo a difusa paisagem...

... Sigo viagem, esboço um sorriso,
sei que numa próxima paragem vais embarcar...

Helder Magalhães in Na fúria do nós

9 de novembro de 2009

Mundo de criança autista



Mundo de criança autista


Deixa-me entrar no teu mundo
e dizer-te que mais mundo existe
vem comigo sorri
liberta-te desse mundo triste

Vem não tenhas medo dos sons
encanta-me com teu sorriso
vem brinca alegremente
para a renova és preciso

Deixa-me entrar no teu mundo
dizer-te que alguém existe em revolta
por querer entrar em teu mundo
e não lhes abres a porta

Não tenhas medo vem
amparar-te-ei na decisão
liberta-te vem ao meu mundo
une teu ao meu coração

Liberta-te, vem ao meu mundo!

"Grapilho" (Pensamentos de Grapilho)

Neste Longo Exercício de Alma...




Neste Longo Exercício de Alma...


Ciência, amor, sabedoria,
- tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,

vence-se o abismo:
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.

Cecília Meireles (7/11/1901 - 9/11/1964)

8 de novembro de 2009

Aqui estou


Aqui estou


Limpo é o dia lavado pela areia
branca, e gelada no mar roda a espuma,
e nesta desmedida solidão
sustenta-se a luz do meu livre-arbítrio.

Mas este mundo não é o que eu quero.

Pablo Neruda

6 de novembro de 2009

Porque...



Slavonic March de Tchaikovsky (7/05/1940 - 6/11/1893)

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner (6/11/1919 -
2/07/2004)



4 de novembro de 2009

Criança



Criança bela, inocente,
Serás o quê amanhã?
Serás nada, serás gente?
Futuro breve o dirá!...

Quero sentir teu sorriso
Assim, pela vida fora!
Ter tua candura é preciso,
Tal qual como ela é agora.

Como tu tenho que ser,
Se quero um dia viver
No futuro ainda por vir...

Agora, enquanto aqui ando,
Deixa-me ver-te brincando,
Tua alegria sentir!

Jacinto Marques

2 de novembro de 2009

Meditação Anciã


Meditação Anciã

Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus


Ruy Belo