19 de novembro de 2009

Homenagem à Bica de Água Quente


À MEMÓRIA LACRIMOSA DA BICA DA ÁGUA-QUENTE NA LAMEIRA

Ó Bica Augusta, cofre d’águas termais,
Que ha muitos lustros foste construída!
Onde estás? Para onde é que tu fugiste?
Alguém matou-te! Tu não tens já vida!

Áureo tesouro de riqueza imensa,
Herança nossa d’evos já passados:
Nós de ti despojados hoje fomos,
Ao seres preza de leões domados!

A tua veia que tão possante que era,
Jorros vertendo d’água caudalosa,
Foi-te cortada, foi, a pouco e pouco,
Até só gotas lacrimejar chorosa!

E essas gotas, ao findar-te a vida,
Tua face em gelo viu-se orvalhando:
‘Té essas mesmas, sem a dor no peito,
Quais sanguessugas foram-t’as sugando!

Cruéis algozes! Tirania injusta,
Sentenciando assim contra a inocente!
Malvados ferros, que tirastes a vida
A quem saúde dava a toda a gente!

Diversos povos te rendiam preitos;
A muita gente deste enfim saúde:
Agora morta, resta um canto fúnebre
Vibrar saudoso á voz d’um alaúde!

Chorai, chorai - vos peço ó vizelenses;
Chorai vosso porvir no pátrio lar:
Pois que o tesouro, que vizela encerra,
Talvez um dia vê-lo-heis findar!

E se sabeis qual foi o malfeitor...
Quem praticar tal acto mandaria...
Que esfoce a terra para achar a água,
Que jaz sepulta, morta, inerte e fria!

Que um véu de luto vá cobrindo os Banhos,
E deles brote pranto já a correr:
Porque esse pranto, comovendo a «câmara»
Dê providências - cumpra o seu dever !

Sábios químicos! - Recorrei aqui :
Vinde valer ao povo descontente:
Pois se os houvesse nesta pobre terra,
Não morreria a Bica da Água-Quente.

Bráulio Caldas - 1886

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