30 de dezembro de 2009

Os Parasitas


Quando vires alguém com ares de iluminado
bem vestido e com odores , cheirando a falso
Sapatos engraxados e bem engravatado
Bem falante, extrovertido, mas oxidado...

Paracismeiro, gentil de mais, subserviente
Acomodado, mas oferecido até à exaustão
E um sorriso forçado estiver sempre presente
Cuidado meu amigo! Diz-lhe sempre NÃO!

E se oferecer seus serviços, parecendo de graça
E se queser impingir um negócio ou um leilão
Finge que aceitas, mas expulsa-o de casa
Fecha-lhe as portas dizendo-lhe, NÃO!

Eu tenho para mim que estes grandes farsantes
Que se esforçam de mais para dar nas vistas
Nem para o céu iria com tamanhos pedantes
Pois não passam de perigosos e fieis parasitas.

Manuel António Amendoeira

28 de dezembro de 2009

Eu canto


Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Irmã das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
No vento

Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço, ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa rimada.
E um dia sei que estarei muda:
- mais nada.

Cecília Meireles

27 de dezembro de 2009

Estás Só


Estás Só

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Ricardo Reis

25 de dezembro de 2009

Dia de Natal


Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

22 de dezembro de 2009

Natal Chique


NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

20 de dezembro de 2009

Retalhos Da Vida De Um Médico





Retalhos Da Vida De Um Médico

Serras, veredas, atalhos,
Estradas e fragas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento

Retalhos fundos nos rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
Retalha as caras fechadas

O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde

Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão

As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São lágrimas que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste

E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade

Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina

Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não segura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura

"Ary Dos Santos"

17 de dezembro de 2009

Murmura, rio, murmura (Fado das Três Horas)

Murmura, rio, murmura


É doce o teu murmurar;
Que tristeza, que ternura,
Tu tens no teu soluçar.

Pela calada da noite,
Enquanto não surge a aurora,
Qu’esta minh’alma se afoite,
Suspira, guitarra, chora!

Voga, barco, mansamente,
Pelas águas prateadas,
Leva este canto dolente,
Aos peitos das namoradas!

Cada nota tão sentida,
Que a minha guitarra envia,
É uma canção dolorida,
D’amor e melancolia.

E estas canções eu trago-as
Presas nas asas da brisa,
Para espalhar sobre as águas,
Enquanto o barco desliza!...

Bráulio Caldas - 1887

14 de dezembro de 2009

A um poeta



A um poeta

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental

12 de dezembro de 2009

Onde vais?


Onde vais, Portugal, que em minha juventude
Eu tanto amei, ao recordar nossos avós,
Que, feitos de coragem, pelo mar atroz,
Percorreram o mundo em toda a latitude?!

Suas gestas sem par, plenas de virtude,
Voaram pela Terra cantadas na voz
De inspirados poetas, cujo eco veloz
Venceu espaço e tempo em sua magnitude.

Hoje, porém, quantos filhos tentam esquecer
Será ousado sonhar de indómito querer
Vivendo num presente flácido, escuro!

Mas pode um Povo, que renega seu passado
E destrói dos avoengos o heróico legado
Construir, por si só, um brilhante futuro?...

Júlio Augusto Massa

10 de dezembro de 2009

Declaração Universal dos Direitos do Homem


Improviso da Alma e do Poeta


Dia a dia o desamor
Quebra o sentido da vida
Sofre-se em segredo
E na incerteza...
Reina a ganância,
A injustiça
O sofrimento, a pobreza
E o medo!

É fácil dizer:
Temos de ser solidários!
Ser… não é fácil?
A vida é tortuosa,
Manhosa
Vai tudo numa pressa.
E na pressa tudo olha
Nada se vê!

Olho! Nada vejo!
Olho! Nada sinto!
Olho! Olho! Olho!
Que vejo?

Vai tudo na pressa
À velocidade do salário.
Vai tudo na pressa
À velocidade do ganho!
E o homem virou máquina,
Computador
Autómato.

Mas… o luar está igual
O céu não mudou!

Mudou a humanidade
Que perdeu a individualidade.
Passámos a ser números,
Peças de inventário.
Desumanidade!

Dia a dia
Caem os valores morais
Perfilam as estatísticas
Dos ganhos:
Ganha a produção:
Ganha-se menos!
Trabalha-se mais:
Ganha-se menos!
Que importa?
Se um homem tem fome?
E se há revolta.
Que importa?
A quem importa?
Importa é o dinheiro
Ser rico,
Virar banqueiro.

Mas… a areia cintila no deserto!
E nem tudo o que brilha é oiro
- Não vedes o céu a irradiar?!

Não! A humanidade não luz:
A sociedade é egoísta,
Prolifera o desamor.
Importa é estar na "berra"
E neste egoísmo nada sobra.
Está quase a bater no fundo!

Estes tempos são difíceis
Só há tempo para o fútil,
Para a notícia brejeira,
Para a asneira
Para a coscuvilhice.
E nesta agitação…
A alma consome
E o corpo mata.

Mas o mar permanece azul!
O melro assobia
O vento vira furacão.

Passou o tempo…
(O tempo passa depressa)
E na pressa
Não há tempo para filhos.
Dos filhos para os avós.
Dos avós para os netos.
Dos meninos para a família!

Volta poesia!
Volta poeta...
Acredita...
Que estamos no Outono,
Mais logo… será Inverno,
Vem aí a Primavera
Tudo será verde… renascido,
E de volta ao lar,
Em redor da lareira
Quando o dia findar,
Os avós,
Os pais
E os netos
Recordarão histórias da vida,
Contadas sem segredos,
(Segredos bem guardados).
E desses segredos
Renascerão
Os gestos colectivos de amor
Repreendidos
E esconjurados
Os actos egoístas
De desamor.

E os meninos
De volta às escolas
(Sem números nas camisolas)
Pintadas a lápis de cor
Vão ter recreios doirados
Em mil e uma aventuras.
E se treparem às arvores,
Subirão à “Torre de Babel”
E todos se entenderão
Na mesma língua.
Porque a terra vai ser paraíso
E os frutos não mais serão proibidos...

Rogério Martins Simões

8 de dezembro de 2009

Paixão ao Luar

Paixão ao Luar

Se eu pudesse juntar as estrelas,
Todas unidinhas no Firmamento,
Ai! que alegria me dava em vê-las,
Escreverem teu nome no momento.

De noite, o céu lindo, todo estrelado,
Não era preciso haver o luar,
O teu nome lá, todo iluminado,
E por debaixo a palavra: AMAR!

Seria lindo arraial, para mim,
Tudo que pedisses, dizia sim
Para eu a noite, não te estragar;

Todas as pessoas a saber ficavam
Como dois corações loucos se amavam
E as estrelas, os quer abençoar!

Fernanda Garcias

6 de dezembro de 2009

Fonte


Fonte

Fonte de água cristalina
água pura benfazeja
capaz de saciar a sede
onde quer que fonte esteja

Tua água pura, corre
por essas terras baldias
és água cristalina bastante
e muitas gentes sacias

sais da fonte, fazes percurso
da sede todos queres mitigar
desaguas no mar, condensas-te
haverás de cair, voltando à mina
para que fonte volte a deitar

"Grapilho" (Pensamentos de Grapilho)

4 de dezembro de 2009

In Memoriam - Vida Sempre


Vida Sempre

Entre a vida e a morte há apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o porão do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incomparável do universo.

Casimiro de Brito

3 de dezembro de 2009

Solidão Corrosiva


Solidão Corrosiva


Esses olhares que matam
e desprezam quem os vê.
Solidão devastadora
que me amarra indefesa
e me consome
sem delicadeza ou cuidado.

Passa tudo à nossa frente,
que vida tão demente!
Que sofrimento tão profundo,
quem vem dói e permanece,
tão forte como sempre.

Maria João Tavares

1 de dezembro de 2009

Testamento



Cantado por Teresa Tarouca.


Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara