30 de janeiro de 2010

Alta noite, os planetas argentados



Alta noite, os planetas argentados

Alta noite, os planetas argentados
Deslizam um olhar macio e vago
Nos seus olhos de pranto marejados
E nas águas mansíssimas do lago.

Pudesse eu ser a lua, a lua terna,
E faria que a noite fosse eterna!

Cesário Verde

27 de janeiro de 2010

Poemas


Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana

24 de janeiro de 2010

Cinco palavras Cinco pedras


Cinco palavras Cinco pedras


Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostação desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito em cada mês
e delas vem a música precisa
para continuar.Recapitulo:
desistência desalento prostação desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas


Ruy Belo

21 de janeiro de 2010

Antes que Seja Tarde


Antes que Seja Tarde


Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

19 de janeiro de 2010

A mim o que me apetece é dançar


A mim o que me apetece é dançar

O guarda-fatos do mar entreaberto para a noite
pergunta-me se amo
e é toda uma paisagem de arcos flamejantes
deslocando-se a oeste
o castelo perdido entre duas visões
o cavaleiro descendo a falésia
depois de tantos anos tantas fábricas tantos
arquitectos de amor fitando o espaço

no alto das arquibancadas o rapaz
que lindo
encarna a vitoriosa lividez do dia

A mim porém o que me apetece é dançar
Dar um salto comigo
de forma a que não me evole feito fumo
nem resvale às profundas feito nada

Isso
o reino de Pràtazul
a linha de água
que suporta e separa e contém os dois mundos
e ondula

Mário Cesariny

17 de janeiro de 2010

Presença Africana

(pinturas de Neves e Sousa)

Presença Africana

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...

A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...

A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...

A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...

A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.

A do amor transbordando

pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)

pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...

Terra!
Minha, eternamente...

Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...

Terra!
Ainda sou a mesma!

Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...

Alda Lara


14 de janeiro de 2010

Pedra Filosofal



Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

11 de janeiro de 2010

Lembranças, que lembrais meu bem passado


Lembranças, que lembrais meu bem passado

Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
Não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida há-de ser sempre em tormento.

Luís Vaz de Camões

8 de janeiro de 2010

Dos Milagres


Dos Milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

Mário Quintana


Acredito que a solidariedade das pessoas irá Dar Vida à Ana

7 de janeiro de 2010

Meu olho e o coração ligam-se a par...


Meu olho e o coração ligam-se a par...

Meu olho e o coração ligam-se a par
que entre eles em boa paz estão,
se de ver-te é faminto o meu olhar
ou suspira de amor meu coração.
Co'a pintura de amor o olhar faz festa
e ao pintado banquete o outro convida,
ou, convidando-o, o coração se presta
a que o pensar de amor então divida.
E assim ou por pintura ou por amor,
se estás ausente, em mim estás presente:
não podes ir mais longe do que for
meu pensamento, e eu, e tu na mente.
Ou se dormem, o ver da tua imagem.
acorda o coração e ambos reagem.


Shakespeare

6 de janeiro de 2010

Manto de luz


Manto de luz

Manhã submersa
no teu manto de luz

Envolves-me ternamente
nesse teu brilho cristalino,
irradiando etéreos filamentos.

Respiro lentamente o teu aroma,
inalo profundamente a tua fragrância,
absorvendo a tua sublime essência...

Preenches-me por completo,
nessa tua imensurável beleza,
inebriando por inteiro este Ser.

Homem na plenitude,
imerso em Ti...

Helder Magalhães in Na fúria do nós

4 de janeiro de 2010

O teu riso

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

1 de janeiro de 2010

Recomeça...

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga