29 de março de 2010

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida



Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

«Tudo no mundo é frágil, tudo passa...»
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»


Florbela Espanca

26 de março de 2010

Um ano depois


Um ano depois

Para dizer o não dito
ou aquilo que
a um só ouvido me atrevo.

Um ano depois a onda
traz-te à superfície,
calo-me para ver
o que te prende o coração.

Na linha dos teus ombros
o fuel volátil dos sonhos.

Fernando Luis Sampaio

24 de março de 2010

Não sei para que lado da noite me hei-de virar



Não sei para que lado da noite me hei-de virar

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua e recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite

Carlos Alberto Machado

22 de março de 2010

Poema


(Jade Goody, vítima de cancro do colo do útero)

Poema

Até o jade se parte,
até o ouro se dobra,
até a plumagem de quetzal se despedaça...
Não se vive para sempre na terra!
Duramos apenas um instante!

Poemas Ameríndios
(poemas mudados para português por Herberto Helder)

15 de março de 2010

Lenda da Fonte



Lenda da Fonte

Maria do Monte
Nascida e criada na encruzilhada
Que fica defronte da fonte sagrada
A lenda é antiga, mas há quem a conte
Que descia o monte, uma rapariga
P'ra beber na fonte

E àquela hora, por ela marcada de noite ou de dia
O Chico da Nora, na encruzilhada esperava a Maria
Seguiam depois, bem juntos os dois ao longo da estrada
Matar de desejos a sede com beijos, na fonte sagrada

Mas um certo dia
Como era esperada, na encruzilhada
Não veio a Maria á hora marcada
Seus olhos divinos, p'ra sempre fechou
A aldeia rezou, tocaram os sinos
E a fonte secou

E àquela hora, por ela marcada de noite ou de dia
O Chico da Nora, na encruzilhada esperava a Maria
Mas oh Santo Deus, escureceram-se os céus, finou-se a beldade
E diz-se no monte, que a velhinha fonte secou de saudade.

Domingos Silva

12 de março de 2010

Céu


Céu


O céu não existe.
Simples distância nua
onde o rumor da terra se reflecte
como o eco dum grito,
deves chamar angústia à lua
e a cada estrela um coração aflito.

Se acaso for o rastro
dalgum cometa errando
no esplendor de tanta solidão,
é o meu desespero,
Lembra-te de tudo o que mais quero
e não lhe chames astro.

Carlos de Oliveira

8 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher



Os silêncios da fala


São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

Maria Teresa Horta

5 de março de 2010

Há um veneno em mim

(Nambuangongo - Angola)


Há um veneno em mim que me envenena,
um rio que não corre, um arrepio,
há um silêncio aflito quando os ombros
se cobrem de suor pesado e frio.

Há um pavor colado na garganta,
e tiros junto à noite, e o desafio
(algures na escuridão) de alguma coisa
calando o fraco apelo que eu envio.

Há um papa que morre enquanto escrevo
estas linhas de angústia e solidão,
há o fogo da Breda, os olhos gastos.

Há a mulher que espera confiada
um pálido vazio aerograma;
e há meu coração posto de rastos.

Fernando Assis Pacheco

2 de março de 2010

O Album



O Album


Minha Júlia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memórias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada
Pelas mãos do mistério há-de ser;
Que não tem língua humana palavras,
Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz ,
Um só fio da tela bordada,
Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos
Dos enganos que a esp’rança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida
Eu coa minha ventura sonhei;
E uma só, dentre tantas, o juro,
Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,
Tão segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memória,
Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memórias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.

Almeida Garrett