29 de abril de 2010

Um Casaquinho Preto



Um Casaquinho Preto

Como podia saber que vivia
num lugar tão distante
e numa casa tão grande?

Que a mãe me falava
de debaixo da terra,
e que o seu rosto era

uma sombra passada
sobre mim debruçada?
Que o seu nome me chamava

e eu já lá não estava,
porque tinha crescido
e porque tudo crescera comigo:

a casa, o quarto, os livros,
até o céu crescera
e se afastava;

e que eu próprio era
uma recordação
de que já mal me lembrava?

Manuel António Pina

26 de abril de 2010

Como Podemos Esperar


Como Podemos Esperar

Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas mãos possam reter.
Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

Aguardar mais aguardar nada
quanto mais se repete uma palavra
«estou sentado virado para a parede desta casa»
baixo, mais baixo ainda,
«estou sentado virado para a parede desta casa».

Fazer que não haja sucedido o sucedido.
O prazer de sentir chegar as coisas
o riso sob a chuva
o frio que faz. Aqui

como podemos esperar uma noite de lua e vento?

João Miguel Fernandes Jorge

24 de abril de 2010

E depois do Adeus



E depois do Adeus

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

José Niza

22 de abril de 2010

As formas de Rosa




As formas de Rosa

As formas de Rosa
lembram-me peixes.
Elas são brancas, lácteas,
as formas de Rosa
são pura razão.
Nas formas de Rosa
estão os peixes, o lago, o arco, o mar,
está um bocado de Céu a sombrear,
e eu amo Rosa.
Quero Rosa. Rosa quer-me a mim amar.
Eu sei que há entre mim e Rosa
um romance que nunca chegou a começar
e eu então ao pensar em Rosa
faço rios, fios de poesia e falo-lhe sem ser em prosa.
Porque um dia Rosa há-de ser minha
na concepção que tinha
à esposa que nunca tive e não quero
faço a amante
e é aí que desespero.
Que neste poema cante o que quero.
Nas formas de Rosa estão os peixes que me altero.

António Gancho

20 de abril de 2010

Dia a Dia



Dia a Dia

Há uma dor sem fim na lentidão do dia.
Há um pássaro de morte nos ramos do meu dia.
Esta folha reflecte a ausência das tuas folhas e é
branca e a tua face é branca
e sonha.
O teu fruto é um magoado fruto santificando os
caminhos do dia.
Feita será a tua vontade nesta terra no meio dos
céus,
no meio do dia.

José Agostinho Baptista,

18 de abril de 2010

Manhã Fresca



Manhã fresca

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente,
O mais pequenino nada
está como se fora gente

De um rapaz louro que finda
(na alameda) uma novela perturbada,
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E na folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

Mário Cesariny

16 de abril de 2010

O Medo



O Medo

NOMEIO constelações uso-as
Para me guiarem no recinto das noites
Escavo corpos na flexibilidade das sombras
Atravesso a manhã e ponho a descoberto
A casa onde a infância secou

O olhar desce aos gestos inacabados
Satura-os de jovens lágrimas de resinas
E o susto da criança que fui reaviva
Um pouco de alegria no coração

AL Berto

14 de abril de 2010

Apoteose




Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar de Ouro
Dormindo fogo, incerto, longemente…
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...

São tristezas de bronze as que inda choro –
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lajearam-se-me as Ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...

Desci de Mim. Dobrei o manto do Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Odor brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas-pranto...

- Ó pântanos de Mim -jardim estagnado!...

Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Ouro

11 de abril de 2010

Nas Quatro Estações



Nas Quatro Estações

No Outono preparo a primavera
no verão o outono
e no inverno espero
a ausência dos dias que tiveram
no outono a raíz. Na
primavera quando
o ar cortado pelas folhas corre
no sangue desde os fins
de janeiro
a água do sol move-me
até ao mar inteiro.

Gastão Cruz

7 de abril de 2010

Vivem em nós inúmeros



Vivem em nós inúmeros

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

Ricardo Reis

5 de abril de 2010

Uma Capa



UMA CAPA

Uma capa fiz do meu canto
De baixo a cima
Bordada
De antigas mitologias;
Mas tomaram-na os tolos
Para exibi-la ao mundo
como se por eles fora lavrada.
deixa, canto, que a tomem,
Pois maior feito existe
Em andar nu.

W. B. Yeats
(tradução de José Agostinho Baptista)

2 de abril de 2010

A morte de Jesus



A morte de Jesus

Ao entardecer daquele dia
Ouviu-se de longe
Uma voz que dizia:
"Pai perdoa-lhes
Porque não sabem
O que fazem!"


Ao som dum violento acoite
Jorravam lágrimas de dor
Da carne sofrida saíam
Gotas sangrentas
Tingindo o corpo Do Senhor!


No rosto meigo
E ao redor da fronte
Duros espinhos fincaram.
Na pele sedosa do peito
Uma lança feroz Cravaram!


Ao acaso foi erguida
Uma tosca cruz
Com furor,
Na qual pregaram o corpo
De Jesus o Salvador!


Era já tarde,
A escuridão a terra cubriu.
Com grande estrondo
Um raio luminoso
De súbito surgiu!


O paraíso se abriu
Para receber Jesus
Que morreu para salvar
Até os que o feriram
E do pecado libertar.


Regina Godinho

1 de abril de 2010

Título desconhecido



Ensinaram-me as coisas importantes
Que afinal o não eram.
Acumularam-me de conhecimentos
De que ainda me liberto.
Ditaram-me no caderno de duas linhas
Os exemplos que procuro não seguir.
Fizeram-me ler as histórias de santos, sábios e heróis,
Que eu não quero ser nem imitar.
Soube de cor as constelações
Que hoje se escondem no fundo das cidades.
Ensinaram-me a pescar nos rios e regatos
Em que bóiam as garrafas de plástico.
Quando eu sabia tudo
Atiraram-me para a vida de que eu não sabia nada
E onde tudo era ao contrário do que aprendera.
Habituei-me a raciocinar pelo contrário.
Não era feliz, era desarmado.
E tive de aprender, de novo,
Tudo o que me haviam ensinado
E que eu queria não ter aprendido.

Jacinto Magalhães