14 de abril de 2010

Apoteose




Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar de Ouro
Dormindo fogo, incerto, longemente…
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...

São tristezas de bronze as que inda choro –
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lajearam-se-me as Ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...

Desci de Mim. Dobrei o manto do Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Odor brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas-pranto...

- Ó pântanos de Mim -jardim estagnado!...

Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Ouro

0 comentários:

Enviar um comentário