29 de abril de 2010

Um Casaquinho Preto



Um Casaquinho Preto

Como podia saber que vivia
num lugar tão distante
e numa casa tão grande?

Que a mãe me falava
de debaixo da terra,
e que o seu rosto era

uma sombra passada
sobre mim debruçada?
Que o seu nome me chamava

e eu já lá não estava,
porque tinha crescido
e porque tudo crescera comigo:

a casa, o quarto, os livros,
até o céu crescera
e se afastava;

e que eu próprio era
uma recordação
de que já mal me lembrava?

Manuel António Pina

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