31 de maio de 2010

Coração de criança


Coração de criança

Não há nada mais puro
que o olhar de uma criança,
tão belo e tão inocente,
tão cheio de esperança...
Ela corre e nunca se cansa,
tudo se torna diversão,
no pensamento de uma criança,
nunca há preocupação.
E o seu coraçãozinho,
é singelo como uma flor,
são 3 pitadas de carinho
e uma xícara de amor...

Jéssica Beck

30 de maio de 2010

Raio de Sol

(Foto de Anne Geddes)

Raio de Sol

Flor que desabrocha,
raio de sol que tudo ilumina em seu redor…
Inocência tão jovem… tão bela…
Não cresças, eterna criança!
Fica para sempre presa nos laços da infância,
sobre as estrelas do teu céu…
Deixa que a luz desponte em ti,
que o vento sopre orgulhoso no nosso jardim:

“Nasceu uma nova flor…”

Joana Assis

28 de maio de 2010

Uma chama não chama a mesma chama



Uma chama não chama a mesma chama


uma chama não chama a mesma chama
há uma outra chama que se chama
em cada chama que chama pela chama
que a chama no chamar se incendeia

um nome não nome o mesmo nome
um outro nome nome que nomeia
em cada nome o meio pelo nome
que o nome no nome se incendeia

uma chama um nome a mesma chama
há um outro nome que se chama
em cada nome o chama pelo nome
que a chama no nome se incendeia

um nome uma chama o mesmo nome
há uma outra chama que nomeia
em cada chama o nome que se chama
o nome que na chama se incendeia

E. M. de Melo e Castro

26 de maio de 2010

Poema Ameríndio



Mulher morena,
morena,
manjar delicado, sorriso
da água,
teu peito não sabe
de mágoas,
teus olhos não sabem
de lágrimas.

Porque és a mulher mais morena,
a mais bela,
a minha rainha,
deixo a água do amor
arrastar-me na corrente,
deixo a paixão, a tormenta,
levaram-me até ao manto
que te cinge os ombros
e a saia revolta
que abraça os teus músculos.

Quando é dia, já não pode
chegar outra noite;
abandona-me o sono
e a aurora não chega.

Tu, minha rainha,
ó senhora minha,
já não quererás
pensar em mim quando
o leão e o lobo
venham devorar-me
no cárcere fundo
cá onde me encontro,
nem quando saibas
que estou condenado
a não ver mais mundo,
ó senhora minha,
tu, minha rainha?

Helberto Hélder - Poemas Ameríndios

24 de maio de 2010

Velando

Velando

Junto dela, velando… E sonho, e afago
Imagens, sonhos, versos comovido…
Vejo-a dormir… O meu olhar é um lago
Em que um lírio alvorece reflectido…

Vejo-a dormir e sonho… Só de vê-la
Meu olhar se perfuma e em minha vista
Há todo um céu de Amor a estremecê-la
E a devoção ansiosa dum Artista…

- Nuvem poisada, alvente, sobre a neve
Das montanhas do céu, – ó sono leve,
Hálito de jasmim, lírio, luar…

Respiração de flor, doçura, prece…
-Ó rouxinóis, calai! Fonte, adormece!...
Senão o meu Amor pode acordar!...

Augusto Casimiro

(poema que li impresso na traseira de um autocarro em Guimarães)

23 de maio de 2010

Pelo sonho é que vamos



Pelo sonho é que vamos

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

20 de maio de 2010

O Teu Olhar nos Meus Olhos



O Teu Olhar nos Meus Olhos

Sempre onde tu estás
Naquilo que faço
Viras-te agarras os braços

Toco-te onde te viras
O teu olhar nos meus olhos

Viro-me para tocar nos teus braços
Agarras o meu tocar em ti

Toco-te para te ter de ti
A única forma do teu olhar
Viro o teu rosto para mim

Sempre onde tu estás
Toco-te para te amar, olho para os teus olhos.

Harold Pinter

19 de maio de 2010

Solidão (em jeito de poema)



Solidão (em jeito de poema)


Tropecei nela
Senti torcer-se-me o coração,
Mas, a dor..., essa dor, era tão forte
Dor de Alma, dor de Coração, dor de Amor
Dor de Ausência, dor de Paixão, de Desamor
Dor, dor, dor!
Duas lágrimas, teimosas, rolaram
Caíram no chão
Essa dor, eras tu

Solidão!


(Eusinha)

18 de maio de 2010

Diz-me, Amor, como Te Sou Querida



Diz-me, Amor, como Te Sou Querida

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!

Florbela Espanca

17 de maio de 2010

Reconhecimento à Loucura



Reconhecimento à Loucura


Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevida mente
e ganhar-Lhe, e ganhar-Lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

José de Almada Negreiros

15 de maio de 2010

O teu retrato

O TEU RETRATO

Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!

Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!

António Nobre

13 de maio de 2010

As Rosas



As Rosas

Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,

Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;

Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,

As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.

Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

Machado de Assis

11 de maio de 2010

Paz!



Paz!


E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão...
Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!

Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha unica afflicção...

Toda a dor pode suspportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva... essa que traz...

Mas uma não: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar n'esse convento
Que ha além da Morte e que se chama A Paz!

António Nobre

10 de maio de 2010

Coisas, Pequenas Coisas



Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.

Fernando Namora

7 de maio de 2010

P.I.Tchaikovsky faria hoje 170 anos




SHE WALKS IN BEAUTY

SHE walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skie
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellow'd to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impair'd the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o'er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.

And on that cheek, and o'er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is inn

Lord Byron

4 de maio de 2010

Lírica de Pardilhó


Lírica de Pardilhó

Então acordo e sinto a meu lado
o esplendor tranquilo
da amada que respira
adormecida deitada sobre o flanco
vertendo a prata de um sorriso

nas ravinas da noite
esferas cantam a alegria
é um sítio de grama rociada

e passam horas
durante as que da rua
ouvindo vozes turvas
eu ficarei teimando
na claridade a todo o preço

de que me fama aves

Fernando Assis Pacheco

3 de maio de 2010

Este é o maio




Este é o maio


Este é o maio, o maio é este,
Este é o maio e floresce.
Este é o maio das rosas,
Este é o maio das formosas,
Este é o maio e floresce.
Este é o maio das flores,
Este é o maio dos amores,
Este é o maio e floresce...

Gil Vicente

1 de maio de 2010

Soneto de aniversário


Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinicius de Moraes