31 de julho de 2010

Se Eu Morresse Amanhã



Se Eu Morresse Amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Manuel António Álvares de Azevedo

29 de julho de 2010

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia



Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhado e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.

«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .

E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!

António Botto

26 de julho de 2010

Para atravessar contigo o deserto do mundo



Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

22 de julho de 2010

Motivo



Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles

19 de julho de 2010

Pedra Filosofal



Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara graga, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

18 de julho de 2010

Pequenina



Pequenina

És pequenina e ris ... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa ...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te faz tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente ...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente ...

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!

Florbela Espanca

15 de julho de 2010

Ditosa Ave



Ditosa Ave

Quem fosse acompanhando juntamente
Por esses verdes campos a avezinha,
Que despois de perder um bem que tinha,
Não sabe mais que cousa é ser contente!

E quem fosse apartando-se da gente,
Ela por companheira e por vizinha,
Me ajudasse a chorar a pena minha,
E eu a ela também a que ela sente!

Ditosa ave! que ao menos, se a natura
A seu primeiro bem não dá segundo,
Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.

Mas triste quem de longe quis ventura
Que para respirar lhe falte o vento,
E para tudo, enfim, lhe falte o mundo!

Luís Vaz de Camões

13 de julho de 2010

Psst... Acorda!


Psst... Acorda!

Psst!..

Sim, Tu,
acorda

Musa adormecida
sob lençóis de seda...

Vem...
Porque esperas?...

Toma a minha mão
que Te procura...

Vamos perder-nos
no canto da maravilha
da Natureza-mãe...

Caminhar
perdidamentepelas
paisagens terrestres...

Escalar as montanhas,
sublevações metamórficas,
erigidas sobre vales...

Observar as
formações rochosas
esculpidas no interior
das deslumbrantes grutas...

Deslizar
livremente sobre
formações no gelo...

Mergulhar
nas correntes
rebeldes dos rios...

Banhar-nos
nas águas límpidas
destes lagos...

Descobrir a
sublime beleza
das paisagens marítimas...

Respirar o
ar puro e abundante
no âmago das florestas...

Comtemplar a
harmonia do silêncio da noite
nos oásis do deserto...
Então?...

Cansada ou rendida?...

Helder Magalhães (Na fúria do nós)

11 de julho de 2010

Canção a S Bento



Um dia um vizelense acordou,
Fez contas e viu que tinha sonhado,
Durante mais de um século então cismou;
Que é que no meu sonho está errado?
...Saltou da cama lesto e de mansinho.
A S. Bentinho perguntou-lhe assim:
Será pecado eu amar, a terra que me viu nascer?
Será pecado desejar, viver aqui e aqui morrer?
A raiva que trago no peito,da gente será um defeito?
Responde lá mas tem cautela, falas p'ra Vizela e não só p'ra mim!!!
S. Bento amigo firme e seguro,nervoso quase caiu do penedo!
Pensou, querem lá ver que este maduro,
que nunca foi cobarde, está com medo?
Olhou o Zé Vizela longamente,
E docemente disse-lhe a sorrir.
Não é pecado tu amares, a terra que te viu nascer!!!!
Não é pecado desejares, viver aqui e aqui morrer!!
A raiva que trazes no peito, Essa sim, é um defeito!
Trabalha, luta, vais vencer,
E quando festa houver, eu também quero ir.

ODETE ALMEIDA.(NO TEMPO DA LUTA PELO CONCELHO)

9 de julho de 2010

Apontamento


Apontamento

Ser Poeta...

É ter sempre em cada mão
a esmola de uma ilusão...

É crer que a Primavera há-de voltar,
mesmo que não volte para o nosso olhar!...

É ver estrelas em cada noite morta,
e felicidade em cada vida torta...

è caminha sobre espinhos, a sorrir,
vaiado p'la descrença, sem ouvir...

É ser soldado sem bandeira
de uma luta traiçoeira...

É crer no fim do DIA concluído,
que nada foi perdido...

Alda Lara

7 de julho de 2010

Poema



Poema

Como se o teu amor tivesse outro nome no teu nome,
chamo por ti; e o som do que digo é o amor
que ao teu corpo substitui a doçura de um pronome
- tu, a sílaba única de uma eclosão de flor.

Diz-me, então, por que vens ter comigo
no puro despertar da minha solidão?
E que mumúrio lento de uma cantiga de amigo
nos repete o amor numa insistência de refrão?

É como se nada tivesse para te dizer
quando tu és tudo o que me habita os lábios:
linguagem breve de gestos sábios
que os teus olhos me dão para beber.

Nuno Júdice

5 de julho de 2010

Inocência


Inocência

Vou aqui como um anjo, e carregado
De crimes!
Com asas de poeta voa-se no céu...
De tudo me redimes,
Penitência
De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irmãos,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as mãos.

Miguel Torga