14 de outubro de 2011

E é Domingo...

















E é Domingo
E é a crise
E é o povo
E é a burrice
E são teimosos
E são mal governados
E são faltosos
E são muito pouco poupados
E tudo rola
E são tantos
E são sem tola
E são só prantos
E tudo está mau
E tudo está difícil
E era dar-lhes com um pau
E são os restaurantes
E são os chinas
E são as voltinhas constantes
E são estes meninos e meninas
E "pobres" com dinheiro
E "pobres" por não saber gerir
E "pobres" que cravam por inteiro
E " pobres" que não param de se denegrir
E é Domingo
E é a crise
E é não ter de vergonha um pingo
E foi domingo
E é segunda
E será terça
E será quarta
E será quinta
E será sexta
E lá começará de novo
E lá se irá o nada, do nada que resta ao povo
E foram dias
E foram as manias
E foram semanas
E foram estes bananas
E foram anos
E foram os desmandos

E como serão no futuro?
E como se irão governar?
E/ou irão continuar a gastar, sem parar de lamentar?
E, se sim, é povo burro!

Grapilho

2 de maio de 2011

No Fim



No Fim

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

Álvaro de Campos, in "Poemas"



Agradeço a quem frequenta este Blogue.

1 de maio de 2011

Pequeno poema

(Quando eu nasci)

Pequeno poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama

Parabéns Mãe, hoje é o nosso dia!

2 de abril de 2011

Olho-te nos olhos



Olho-te nos olhos

olho-te nos olhos:
com versos emprestados e tímidas lágrimas hesitantes,
despimos o manto dos segredos.


olho-te nos olhos:
e pergunto-me se algum dia lerás
o mar que arde e que tarda em amanhecer.
respondes com dedos lânguidos
decorando o mapa do meu rosto ausente.

pouco importa o beijo que um dia prometi - lembras-te?
vai insistindo a eterna muralha do silêncio.
esgotando (dizem-nos) está o sibilante céu amargurado,
e nós, olhos nos olhos, de almas coladas,
trocando cartas vazias e inventando serenamente
uma nova palavra para amar.

palavramante,
voam os lábios enlaçados,
murmurando poesia a noite inteira.
não digas nada: é que tudo já está escrito no livro do destino.

Ricardo Gil Soeiro

1 de abril de 2011

Um Fado: Palavras Minhas



Um Fado: Palavras Minhas


Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen

29 de março de 2011

Dona Abastança



Dona Abastança

«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.

Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»

Já se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
De tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.

Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"

23 de março de 2011

Portugal....



Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill

19 de março de 2011

Esperança



Esperança

Vem, esp'rança, animar os meus dias:
Ah! não fujas... não fujas assim:
Dá-me um riso, dos teus magos risos..
Oh í esquiva não sejas p'ra mim.

E serás para sempre meu nume,
Minhas crenças em ti firmarei:
E da lyra a corda mais terna
Inspirada por ti yibrarei.

Não és praia das ondas batida,
Nem és concha do már expulsada,
Não és fonte das calmas exhausta,
Nem és rosa no peito murchada.

E's centélha na mente accendida,
E alaúde de dôce harmonia,
Que alto tanges na corda dourada,
Doce corda, que diz —fantasia —

E's o sonho constante da vida;
Com encantos o Céo te fadou:
E's o meigo sorrir da existencia,
Nunca o homem o sêr te mudou!...

Vem, espVança, animar os meus dias:
Ah! não fujas... não fujas assim:
Da-me um riso dos teus magos risos...
Oh! esquiva não sejas p'ra mim.

Mas que importa? és mentirosa;
E a mentira não dura:
Fóge o riso n'um momento,
E' maior a desventura!

Tuas illusões fagueiras
Não pódem satisfazer:
Vae, espVança, que não quero
O teu falso promcltcr.

Eu não quero, que me outorgues
Cá no mundo vãa grandeza;
Não amo o fausto, nem quero
Os lhesouros da riqueza.

Não me agrada o reboliço,
Nem o luxo da cidade:
Amo só dos pobres campos
À paz, a simplicidade.

Anna Amália Moreira de Sá

Parabéns Vizela. Parabéns Vizelenses.

18 de março de 2011

Menos a mim



Menos a mim

Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.

Ferreira Gullar

13 de março de 2011

Metade



Metade

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também

Ferreira Gullar

7 de março de 2011

Tempo geométrico



Tempo geométrico



Esse compasso de espera

Que altera fisionomias

Condiciona temperamentos

Impõe estados de alma

Tira linhas à vida.

José Azevedo Nóbrega

4 de março de 2011

Amnésia



Amnésia

Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
apenas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).

E peço, em vão, uma palavra exacta,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.

Fernanda Botelho

27 de fevereiro de 2011

A Gaiola



A Gaiola


E era a gaiola e era a vida era a gaiola
E era o muro a cerca e o preconceito
E era o filho a família e a aliança
E era a grade a filha e era o conceito
E era o relógio o horário o apontamento
E era o estatuto a lei e o mandamento
E a tabuleta dizendo é proibido.

E era a vida era o mundo e era a gaiola
E era a casa o nome a vestimenta
E era o imposto o aluguel a ferramenta
E era o orgulho e o coração fechado
E o sentimento trancado a cadeado.
E era o amor e o desamor e o medo de magoar
E eram os laços e o sinal de não passar.
E era a vida era a vida o mundo e a gaiola
E era a vida e a vida era a gaiola.

Maria do Carmo Melo

16 de janeiro de 2011

O Corpo...



O Corpo...

É pêssego
Tangerina
E é limão

Tem sabor a damasco
e a alperce

Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe

De maça guarda o pecado
e a sedução

Do mel
o açúcar que reveste

Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece

Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce

Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece

Devagar mexo sem tino
as minhas mãos

Provando de ti
o que de ti viesse

O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece

Maria Teresa Horta

9 de janeiro de 2011

Murmúrios de primavera



Murmúrios de primavera

Despe a terra seu manto de tristeza
Ruboriza-se o dia como a rosa
Em fragrâncias desperta a natureza
Sorrindo em núbil trajo donairosa.

Rumorejam as águas das levadas
Alegrando o silêncio dos caminhos,
Pelo arrebol, em trilos enlevados,
cantam aves em torno dos seus ninhos.

Traz o vento murmúrios de alegria
Que se estendem pela alta serrania
Em hinos de harmonia e de louvor.

Pelo manto do céu de azul tingido
Brilha o sol resplendente, envaidecido,
Por enviar ao mundo o seu calor.

Ilda Pinto Ribeiro

5 de janeiro de 2011

Vai…


Vai…

Para sonhar o que poucos ousaram sonhar.
Para realizar aquilo que já te disseram que não podia ser feito.
Para alcançar a estrela inalcançável.

Essa será a tua tarefa: alcançar essa estrela.
Sem quereres saber quão longe ela se encontra;
nem de quanta esperança necessitarás;
nem se poderás ser maior do que o teu medo.
Apenas nisso vale a pena gastares a tua vida.

Para carregar sobre os ombros o peso do mundo.
Para lutar pelo bem sem descanso e sem cansaço.
Para enxugar todas as lágrimas ou para lhes dar um sentido luminoso.
Levarás a tua juventude a lugares onde se pode morrer, porque precisam lá de ti.
Pisarás terrenos que muitos valentes não se atreveriam a pisar.
Partirás para longe, talvez sem saíres do mesmo lugar.

Para amar com pureza e castidade.
Para devolver à palavra “amigo” o seu sabor a vento e rocha.
Para ter muitos filhos nascidos também do teu corpo e – ou – muitos mais nascidos apenas do teu coração.
Para dar de novo todo o valor às palavras dos homens.
Para descobrir os caminhos que há no ventre da noite.
Para vencer o medo.

Não medirás as tuas forças.
O anjo do bem te levará consigo, sem permitir que os teus pés se magoem nas pedras.
Ele, que vigia o sono das crianças e coloca nos seus olhos uma luz pura que apetece beijar, é também guerreiro forte.
Verás a tua mão tocar rochedos grandes e fazer brotar deles água verdadeira.
Olharás para tudo com espanto.
Saberás que, sendo tu nada, és capaz de uma flor no esterco e de um archote no escuro.

Para sofrer aquilo que não sabias ser capaz de sofrer.
Para viver daquilo que mata.
Para saber as cores que existem por dentro do silêncio.
Continuarás quando os teus braços estiverem fatigados.
Olharás para as tuas cicatrizes sem tristeza.
Tu saberás que um homem pode seguir em frente apesar de tudo o que dói, e que só assim é homem.

Para gritar, mesmo calado, os verdadeiros nomes de tudo.
Para tratar como lixo as bugigangas que outros acariciam.
Para mostrar que se pode viver de luar quando se vai por um caminho que é principalmente de cor e espuma.
Levantarás do chão cada pedra das ruínas em que transformaram tudo isto.
Uma força que não é tua nos teus braços.
Beijá-las-ás e voltarás a pô-las nos seus lugares.

Para ir mais além.
Para passar cantando perto daqueles que viveram poucos anos e já envelheceram.
Para puxar por um braço, com carinho, esses que passam a tarde sentados em frente de uma cerveja.
Dirás até ao último momento: “ainda não é suficiente”.
Disposto a ir às portas do abismo salvar uma flor que resvalava.
Disposto a dar tudo pelo que parece ser nada.
Disposto a ter contigo dores que são semente de alegrias talvez longe.

Para tocar o intocável.
Para haver em ti um sorriso que a morte não te possa arrancar.
Para encontrar a luz de cuja existência sempre suspeitaste.
Para alcançar a estrela inalcançável.

Paulo Geraldo