23 de dezembro de 2014

A caminho de um Natal......



Vou a caminho de um Natal,
acompanhada pela saudade,
levada pela esperança,
esperada pelo amor incondicional!

Na memória levo a lembrança
de tantos Natais do passado...
no coração a certeza
que meus amores estão a meu lado.

Maria do Resgate Salta

12 de dezembro de 2014

Saluti a Vicenzo................



Saluti a Vicenzo


Isto de a gente sorrir, de cabeça inclinada
sobre o ombro direito,
para uma tela serapintada
sem forma nem jeito,
só porque tem luz,
só porque tem cor,
é sinal de graça,
é sinal de amor.

António Gedeão

7 de dezembro de 2014

Idealizei um jardim florido....


Idealizei um jardim florido....

Neste jardim da vida,
cultivo flores...
Mas para cultivar flores
Vou aprendendo
a lidar com os espinhos.
Também aprendo
que as plantas agrestes
dão as flores mais belas.
Neste jardim da vida,
Não existem só flores...
Não existem só espinhos...
Existe a planta!
A vida!

Maria do Resgate Salta

30 de novembro de 2014

Poema Transitório.....


Poema Transitório

(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!

... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

Mario Quintana

21 de novembro de 2014

Como te contar?


Como te contar?

Inquieta-me a lucidez de certas horas.
Como te contar? Tudo nelas é perfeito,
e claro, e inabalável ... Até a dor!

A acomodação à realidade
põe-se a subir sorrateira pelo corpo
dos sonhos e dos desejos. Mata-os!

É perigoso viver desarmado
na lucidez das horas.
Quando menos se espera, morre-se!

Quero a minha lanterna sempre acesa,
Entrar com ela no inexprimível  sossego
que precede a tempestade;

Escutar o respirar aflito do mundo
entre dois trovões, duas guerras, dois gritos,
separados apenas por um fio;

Um espaço impreciso, o fio, entre o um e o dois,
Espaço a que, só por ignorância,
chamamos silêncio.

Lídia Borges

18 de novembro de 2014

Se Me Esqueceres......


Se Me Esqueceres

Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.

Pablo Neruda

16 de novembro de 2014

Os Dois Horizontes


Os Dois Horizontes

       Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a sauda
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.
Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.
No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.
Que cismas, homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

       Dois horizontes fecham nossa vida.

 Machado de Assis

12 de novembro de 2014

Abre-se a janela......


Abre-se a janela....

Abre-se a janela
entra o som da vida
e através dela
vejo a minha pequenez.

No rolar dos carris
as imagens correm
tanta terra, tanto país
somos tantos no viver.

Viagens divididas
coração em metade
memórias vividas
na janela da maternidade.

Maria do Resgate Salta

2 de novembro de 2014

Outono.........




Árvore despe-te!
Tira o teu manto de folhas,
outrora carnudas e verdejantes,
hoje secas e pintadas pelo outono
com cores do pôr do sol.

E com o vento
espalhando tua roupagem
pelas veredas do tempo,
deixa que o inverno te abrace,
então já completamente nua.

Não te entristeças!
Teus ramos esguios não farão sombra
aos caminheiros
que em ti vão procurar
momentos de descanso e calor.

Aguarda pacientemente
pelas veredas do tempo.
As aves trarão a primavera nas asas
e em ti renascerá a folha, a flor e o fruto,
serás rainha da natureza!
 
Maria do Resgate Salta

1 de novembro de 2014

Não tenho pressa................



Não tenho pressa

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

Alberto Caeiro
Heterónimo de Fernando Pessoa

28 de outubro de 2014

Lucidez do fim...........



Lucidez do fim

Momentos voando na zona cinzenta
do meu cérebro,
suas asas batento entrelaçam meu pensamento
na cor da liberdade.

Fluem as ideias nas ondas da luz
de meus olhos,
solta-se a vida no fulgor do raio do sol de cada manhã
até à lucidez do fim.

Maria do Resgate Salta

24 de outubro de 2014

Baila-baila


Baila-Baila

Meus versos perdidos...
meus versos achados...
vão uns, vêm outros...,
e esses se vão
de novo, enganados.

são versos perdidos...
são versos achados...

(meu Deus, fui sincera?
se o não fui, quisera!)

e os versos são meus,
bem meus, porque não?...
só não sei dizer
quando são perdidos,
ou quando não são...

e assim, nos bailados
do rumo-sem fim,
eu vou-os tecendo...

levando-os... trazendo-os...
em busca de mim!...

Alda Lara

17 de outubro de 2014

Poema ao jantar


Poema ao Jantar


Olá, que estás a fazer?
O jantar.
O que é que vais fazer?
Um poema…
Só um poema, ou alguma coisa para acompanhar?
Sim, vou juntar-lhe o tempo...
e meia dúzia de pensamentos, dos mais pequenos…
Posso ajudar-te?
Claro, fazemos para os dois.
Passa-me aquelas palavras…
Quais?
As que estão por aí sem norte, desarmadas e frias.
E servem?
Vais ver, tenho um truque que as torna de ler e chorar por mais.
Não estão duras?
Com um pouco de paciência e cozedura lenta, amolecem.
Espera, preciso de bater primeiro o coração.
Queres que bata?
Bate comigo, os dois somos o número ideal.
Põe mais beijos…
mais, não deixes cair muitos de uma vez.
Tem já uma bela cor!
estou a ficar cheio de fome.
então pega no meu corpo e aquece-o,
Não deixes queimar, mexe sempre os olhos,
repara na cidade e nas sombras que diminuem.
cuidado não vá engrossar esse modo de ser.
Já podemos juntar tudo?
Falta-me a ternura, não sei se restou alguma,
tive um poema enorme a semana passada.
espera, já cresceram mais umas folhas.
Apanha com cuidado, para a deixar crescer outra vez.
Agora basta que me tenhas e me queiras,
Junta o ramo de cheiros que a tua memória colheu
Cheira, como é boa essa pitada de loucura que juntaste.
Vá, senta-te, Vou servir.
Pão?
Não, prefiro assim.
Traz o vinho
Tinto?
Claro, e tu senta-te, não quero começar sem ti.

Jorge Bicho

10 de outubro de 2014

Luar



LUAR

O luar enche a terra de miragens
E as coisas têm hoje uma alma virgem,
O vento acordou entre as folhagens
Uma vida secreta e fugitiva,
Feita de sombra e luz, terror e calma,
Que é o perfeito acorde da minha alma

Sophia de Mello Breyner Andresen

23 de agosto de 2014

a tua Ausência dói-me.......................................


Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
Magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
Um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
As coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
Realidade aproxima-me de ti, agora que
Os dias correm mais depressa, e as palavras
Ficam presas numa refracção de instantes,
Quando a tua voz me chama de dentro de
Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice

20 de agosto de 2014

Poema....................


POEMA

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

16 de agosto de 2014

Gratidão................


Gratidão

Na cúpula de uma árvore viçosa
Numa conversa privada
Oiço um chilrear afinado.
São dois pássaros em tons dourados
Que docemente segredam entre si.
A interseção da luz deste entardecer
Numa mistura de cansaço, de auge e de prazer
Pintam-nos em tons de verão.
Serão talvez os meus olhos sensíveis
Ou talvez a minha alma
Facilmente se enterneça
Mas a cumplicidade entre os dois
Deixou-me ainda mais agradecida.
Como é bom que o milagre da vida aconteça!

Paula Marques

9 de agosto de 2014

Ode à Paz......


Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                               deixa passar a Vida!

Natália Correia

5 de agosto de 2014

Atraso.......................


Atraso

Não irei esperar mais por ti,
foi demais o tempo em que me faltaste,
O muito correr de te esperar
me cansou,
Não sei se foi do Amor que demoraste,
ou se da marcha do teu tempo
que atrasou.

José Duarte

4 de agosto de 2014

Memória de um amor que nunca foi...................


E são de aves
as folhas que tombam
e não há chão nem vento onde se deitem.

Melhor dormir se o tempo se faz sem ti
e guardar-te em sonho
até tu mesmo seres noite.

Mia Couto

31 de julho de 2014

As pequenas palavras


As pequenas palavras

De todas as palavras escolhi água
porque lágrima chuva porque mar
porque saliva bátega nascente
porque rio porque sede porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra papoila cor semente
porque rosa recado porque pele
porque pétala pólen porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga riso porque amor
porque partilha boca porque nós
porque segredo água mel e flor.

e porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolho dor.


Rosa Lobato Faria



De todas as palavras escolhi SAUDADE.......with Nuno Salta

25 de julho de 2014

O grito claro..................


O grito claro

De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro.

António Ramos Rosa

17 de julho de 2014

Viagem



Viagem

Fez tanto luar que eu pensei em teus olhos antigos
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos
que tornei a viver contigo enquanto o vento passava.

Houve uma noite que cintilou sobre o teu rosto
e modelou tua voz entre as algas.
Eu moro, desde então, nas pedras frias que o céu protege
e estudo apenas o ar e as águas.

Coitado de quem pôs sua esperança
nas praias fora do mundo...
- Os ares fogem, viram-se as água,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam.

Cecília Meireles

15 de julho de 2014

Manhã



Manhã

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos


Mia Couto

10 de julho de 2014

Não digas nada.....


Não Digas Nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

9 de julho de 2014

O Livro das Horas



Deus só fala a cada um antes de o moldar,
depois vai com ele em silêncio da noite sair.
Mas as palavras, antes de cada um começar,
estas nubladas palavras a ele se vão dirigir:

Pelos teus sentidos enviado,
vai até ao limite da saudade;
dá-me vestes de todo o lado.

Cresce atrás das coisas como incêndio de verdade
de modo que suas sombras, extensamente,
sempre me cubram totalmente.

Deixa que tudo te aconteça: beleza e terror.
Apenas é preciso avançar: não há sentimento de mais longo teor.
Não te deixes de mim apartar.
Perto está o chão,
a que vida costumam chamar.

É certo que o irás encontrar
e reconhecer pela seriedade maior.

Dá-me a tua mão.

Rainer Maria Rilke

1 de julho de 2014

Amor.....



AMOR

É de amor que falo
se o olhar se perde em vagas ausências
e as mãos,
nervosas,
entretecem a malha da espera...
Falo de amor
quando

a solidão grita alto o silêncio.

Ana Maria Soares

29 de junho de 2014

Lugares de infância................


"Lugares da Infância

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis."

Manuel Pina

19 de junho de 2014

há um poema que não escrevo.....


há um poema que não
escrevo, apenas o devo
ao silêncio entre
os teus olhos
e os meus olhos.
é um poema a florescer
açucena, das raízes
às tuas mãos pelas minhas
mãos.


Helder Magalhães

14 de junho de 2014

Alma Serena


Alma Serena

Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Fernanda de Castro

12 de junho de 2014

Miragem......



Miragem

A ponte ruiu entre nós
sem ruído
e ficaste na outra margem

Foi como se o mundo
quebrasse
se partisse em dois
se transformasse num deserto

Fiquei apenas eu
e tu
do outro lado.
és agora
sonho e ilusão
estátua
como miragem...

José Gabriel Duarte

10 de junho de 2014

Viagem.....


Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga

9 de junho de 2014

Para Ti............


Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos

simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto

7 de junho de 2014

Disseram que havia sol...


Disseram que havia sol

Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas

Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas

Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas

E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas

Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo

José Saramago in Provavelmente Alegria

6 de junho de 2014

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir....



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.


Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

5 de junho de 2014

De que são feitos os sonhos?



De que são feitos os sonhos?
De desejos acalentados
De segredos guardados
E de esperanças suprimidas? 
Ou serão feitos de cores garridas
De enlaces de vidas
E de vontades aclamadas?
De que são feitos os sonhos:
De dias risonhos
Ou de noites frias?...

Paula Marques, 5 de junho de 2014

Hoje decidi!

Hoje decidi!
Decidi retomar este espaço onde partilhei tantos e tantos poemas de outros tantos autores. Uns mais conhecidos, mas que não conheci e nem conheço pessoalmente.... outros menos conhecidos, mas que conheço pessoalmente. Gosto de todos os que aqui coloco. Nenhum é mais importante....todos são importantes! 
Hoje decidi porque a saudade deste espaço me invadiu!
"Poemar" é sonhar!
Boa leitura!