29 de junho de 2014

Lugares de infância................


"Lugares da Infância

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis."

Manuel Pina

19 de junho de 2014

há um poema que não escrevo.....


há um poema que não
escrevo, apenas o devo
ao silêncio entre
os teus olhos
e os meus olhos.
é um poema a florescer
açucena, das raízes
às tuas mãos pelas minhas
mãos.


Helder Magalhães

14 de junho de 2014

Alma Serena


Alma Serena

Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Fernanda de Castro

12 de junho de 2014

Miragem......



Miragem

A ponte ruiu entre nós
sem ruído
e ficaste na outra margem

Foi como se o mundo
quebrasse
se partisse em dois
se transformasse num deserto

Fiquei apenas eu
e tu
do outro lado.
és agora
sonho e ilusão
estátua
como miragem...

José Gabriel Duarte

10 de junho de 2014

Viagem.....


Viagem

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga

9 de junho de 2014

Para Ti............


Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos

simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto

7 de junho de 2014

Disseram que havia sol...


Disseram que havia sol

Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas

Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas

Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas

E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas

Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo

José Saramago in Provavelmente Alegria

6 de junho de 2014

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir....



Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.


Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

5 de junho de 2014

De que são feitos os sonhos?



De que são feitos os sonhos?
De desejos acalentados
De segredos guardados
E de esperanças suprimidas? 
Ou serão feitos de cores garridas
De enlaces de vidas
E de vontades aclamadas?
De que são feitos os sonhos:
De dias risonhos
Ou de noites frias?...

Paula Marques, 5 de junho de 2014

Hoje decidi!

Hoje decidi!
Decidi retomar este espaço onde partilhei tantos e tantos poemas de outros tantos autores. Uns mais conhecidos, mas que não conheci e nem conheço pessoalmente.... outros menos conhecidos, mas que conheço pessoalmente. Gosto de todos os que aqui coloco. Nenhum é mais importante....todos são importantes! 
Hoje decidi porque a saudade deste espaço me invadiu!
"Poemar" é sonhar!
Boa leitura!