30 de novembro de 2015

Não Digas Nada!



Não Digas Nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



28 de novembro de 2015

Vaga, no azul amplo solta


Vaga, no azul amplo solta

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Fernando Pessoa

24 de novembro de 2015

Liberdade


Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

22 de novembro de 2015

O Sal da Língua



O Sal da Língua

Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

30 de agosto de 2015

Mas por onde eu caminhe levarei o teu olhar e para onde tu fores levarás minha dor.......



Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei o teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
Do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda

24 de julho de 2015

A Palavra (Ordet)


A Palavra (Ordet)

A palavra por muitos esquecida
A palavra por outros ignorada
A palavra tantas vezes omitida
A palavra outras vezes deturpada

A palavra tão pequenina
Mas nela reside o universo
A palavra que em surdina
é dita em tempo adverso

A palavra que é a essência
o âmago, a luz, a esperança
da nossa fugaz existência...
Fé...feliz de quem a alcança!

Maria Resgate Salta

16 de julho de 2015

Meu querido Filho.....



Meu querido filho,

Alguém me disse:
essa dor vai atenuar...
no tempo esbater.
Foi tão estranho o falar,
alheia a um filho perder...
como pode ela saber?

O tempo tem passado
e com ele percorre a dor
nos dias em que sobrevivo
desde que partiste meu amor.
O tempo vai encurtar
o tempo de te voltar a abraçar.

Mais um mês de infelicidade
Com esta dolorosa saudade!
Amo-te!

Maria do Resgate Salta

10 de julho de 2015

Sentido ........


Sentido

Dar sentido à vida...
quando a vida tem de ser sentida,
....aqui e neste momento,
em que o sentido não é vida
em que a vida está sem sentido

Como foi vivida e sentida
anos de vida com sentido.
O dia, o instante, a vida a partir
levou consigo o sentido
vive-se sem a vida sentir.

Maria Resgate Salta

29 de junho de 2015

Idade.......................


Idade

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.

Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.

Mia Couto


27 de junho de 2015

Meu querido filho.............



Meu querido filho,

Foi um dia especial
o do teu nascimento...
Foi o primeiro,
foi o nosso momento.
Foi o dia em que nasci
como mãe!
Na tua face pequenina
eterno amor senti.
Nas tuas mãozinhas
coloquei meu coração.
Foi o primeiro dia
dos dias seguintes…
cheios de amor...tanto amor
luz e alegria, preocupação...
tanta preocupação.
Hoje faz 31 anos que nasceste
para a vida e para nós.
Já partiste há 3 anos,
mas eu, a mãe que nasceu
naquele primeiro dia
envio-te meus beijos e amor
eterno filho meu!
Parabéns meu adorado filho!
Amo-te!

Maria do Resgate Salta

1 de junho de 2015

27 Flores no meu Jardim......

Hoje tive o privilégio de falar sobre poesia, não como poeta pois não o sou, mas como leitora e apreciadora.
Este momento foi-me proposto pela Prof. Maria José Costa​ e partilhei-o com os seus 27 alunos.
Inicialmente brindaram-me com um delicioso texto de boas vindas.
Partilhei com este jovens o meu gosto pela poesia, como sinto a poesia, como qualquer um de nós pode fazer poesia baseando-se em coisas e momentos da vida.
Partilhei alguns poemas de Alda Lara e o seu e meu amor por Angola. Partilhei as conversas com meu filho. Partilhei o que me rodeia.
Partilhei também o projecto Microliteratura​ e Curta Poéticas. Ofereci o livro de Helder Magalhães​ manuscrito e feito em tipografia: Dista um palmo, a amplitude do peso que suportas.
Penso que eles saíram mais ricos mas tenho a certeza que eu sai muito mais rica pois no fim leram um poema que fizerem em conjunto e união de sentimento: 27 Flores no meu Jardim. Vim com 27 rosas nos braços!
Este dia ficará para sempre na minha memória e no meu coração.
O meu agradecimento à Professora Maria José Costa e seus alunos da turma 8.3 do Externato Delfim Ferreira: Carla Martins, Ana Baptista, Rui Oliveira, José Fernando, Daniel Cunha, Mariana Costa, Ana Ferreira, Maria João, Rui Marabuto, Daniela Gonçalves, Rui Martins, Nuno Pinto, Fábio Oliveira, Simão de Oliveira, André Gomes, André Alves, Luís Abreu, Inês Oliveira, Rúben Torres, Ana Francisca, Ana Maria silva, Gil Monteiro, Diogo Lemos, Ana Lucília Silva, Vítor Costa, Rui Costa e Sofia Gomes.
A todos um grande abraço de amizade e carinho.


7 de maio de 2015

Conquista................


Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
 
 Miguel Torga

3 de maio de 2015

Mãe.....................


Quando Eu For Pequeno

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.
Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.
Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.
Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria

2 de maio de 2015

Palavras minhas...............



Palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.
Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.
Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...
Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen

25 de abril de 2015

Liberdade...........



Dia da liberdade

Liberdade de ser livre,
liberdade de ser cidadão,
liberdade de ter consciência,
liberdade de ter opinião.

Liberdade de ir ou de ficar,
liberdade que não tira a liberdade,
liberdade de trabalhar,
liberdade de ouvir a verdade.

Liberdade de um, de todos
liberdade com razão...
pensar em liberdade
com liberdade no coração.

Maria Resgate Salta

3 de abril de 2015

Entre a paisagem e a memória



Entre a paisagem e a memória...

Entre a paisagem e a memória
películas da minha vida
trespassam o pensamento
e tecem a minha história.

Vou buscá-las às estantes
onde as guardo ciosamente
Podem ser um minuto, um dia...
ou até segundos, mas importantes!

Vivo o que já vivi
Entre a paisagem e a memória...
recordo a felicidade que se foi
no dia em que pela metade morri.

Maria Resgate Salta

2 de abril de 2015

Páscoa


Páscoa...
minha infância,
ovos pintados,
decorados...
as amêndoas
de licor...
sexta-feira santa
só peixe e pouco mais..
a procissão
passo a passo,
silenciosa,
pesarosa...
Cristo morreu
e ressucitou, aleluia!
Mas ele morre
todos os dias,
nós matamo-lo
todos os dias...
E todos os dias
Ele ressucita
para nos perdoar.


Maria do Resgate Salta

28 de março de 2015

Algoritmo da vida

Algoritmo da vida

A vida soprou-me no primeiro choro
em Maio no primeiro dia ...
longe da terra que seria minha
na terra que um dia me veria

A vida levou-me para a mãe África
uma mãe mágica, musical, quente...
cresci absorvendo a sua seiva
e sua sabedoria gravei na mente.

A vida com as suas voltas retorcidas
fez-me voltar à terra onde a vida me soprou
longe da terra que era a minha
mãe África que no passado ficou

A vida fez-me provar a escassez,
a injustiça, o desencanto e impotência
A vida fortaleceu-me de de mim fez
guerreira contra as suas adversidades.

A vida trouxe-me desamor
acompanhado por dois grandes amores
A vida trouxe-me uma grande dor...
Meu filho, metade de mim já sem vida.

Maria do Resgate Salta

23 de março de 2015

Raio de arco-íris



A macia alma foi-se
vestindo de farrapos,
agrestes e cinzentos,
costurados pelas dores.

Nela existe o belo,
num canto ao sol nascer
raio de arco-iris,
fazendo a alma sorrir.

(com Nuno Salta e Sano Ogawa)

Maria Resgate Salta

21 de março de 2015

Porque o povo diz verdades.....................


Porque o povo diz verdades

Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande prisão sem grades
Onde há já milhares de anos
A razão vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

Já o escravo se convence
A lutar por sua prol
Já sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
Já não se deixa roubar,
Por medo ao tal satanás,
Já não adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem dão estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.

António Aleixo

20 de março de 2015

Microliteratura .................Amigo(a)




1.

Na desventura fria
que a vida arrefece
o brilho quente,
a palavra doce,
o abraço firme
do Amigo
reacende e aquece
a esperança em nós.

2.

Hoje vi uma Amiga
abracei-a com carinho
agradecida
por viajar até mim
num momento de escuridão.
O seu brilho iluminou-me!

(dedicado à Filomena Castro ♥)

3.

 Perfeita magia
que suporta vendavais, furacões
e mesmo nas tempestades
continua a amizade.
Amigo que sorris sabendo que os espinhos têm rosas!

4.

Um dia chorei
porque perdi um amigo.
Um dia chorei
porque descobri que não era amigo.
Um dia chorei
com saudades do amigo que nunca o tinha sido.

5.

A melodia
que nos ergue...
O toque
que nos emociona...
A confiança
que nos une...
Amigo é sempre.

6.

Folha invisivelmente pintada
com as cores do abraço..
Ser e estar no preciso momento
Amigo e amizade num laço.

7.

A nota do piano
que nos toca o coração...
O quente fio de oiro
que aquece a palavra...
Amigo é sentido
que abraça a nossa dor.

8.

É sombra,
é abrigo
é bonança na tempestade
e abundância na escassez...
Amigo,
quase uma raridade!

9.

Uma voz quente
na palma da mão
oferta o coração
ao Amigo carente.

10.

Na memória estás,
no coração vives.
És filho, és amor, és amigo,
saído do ventre da mãe
para seres sua luz
no universo da tua vida.

(dedicado a todas as mães que perderam seus filhos)

Maria Resgate Salta

2 de fevereiro de 2015

Na imensidão do mar.......



Na imensidão do mar
recordo a minha terra...
Na imensidão de seu mar
ficaram alguns sonhos.

Na imensidão do mar
Cheiro a minha terra...
que a chuva vinha molhar
em tempestade passageira

Na imensidão do mar
chama-me a minha terrra...
um dia hei-de voltar
a Angola e dizer: sou tua!

Maria do Resgate Salta