21 de maio de 2016

Manhã


Manhã

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Mia Couto

1 de maio de 2016

60 anos


60 anos!
60 anos se passaram desde o dia em que nasci.
Fui a 3ª de 4 filhos. Tenho um irmão mais velho e uma irmã mais nova. A primeira filha dos meus pais e minha irmã faleceu aos 10 meses de idade.
Não a conheci pessoalmente mas conheço-a através das palavras e emoção transmitidas pelas recordações da minha mãe.
Poderei dizer que a minha vida teve e tem tido de tudo.
Já passei por 2 guerras (uma em criança e outra já jovem adulta).
Vivi numa terra excepcional cuja seiva se entranhou no meu sangue.
Vivi com pouco, com muito pouco e isso fez-me dar valor ao essencial.
Meus pais transmitiram-me, tanto por palavras como por exemplos, que valemos o que somos, o que lemos, o que praticamos.
Aprendi a pensar muito cedo, a ter a minha opinião (para isso devorei livros) ou seja, a ser livre.
Realizei o sonho de ser médica apesar de muitas dificuldades financeiras.
Realizei o sonho de ser mãe - dois filhos educados, estudiosos, com valores ___ Nuno Salta  e Ana Rita (Sano Ogawa).
Vivi em vários locais - Luso (agora Luena), Luanda, Lisboa, Luanda, Estoril, Santo António dos Cavaleiros, Vizela.
A minha caminhada tem tido momentos de muita felicidade como momentos de muita dor, esta dor que nunca irá passar.
60 anos e dou Graças a Deus porque, apesar de tudo, sou uma privilegiada por ter uma família, bons amigos, trabalho e ter tido sorte de ter nascido num país onde não se praticam diariamente atrocidades contra a humanidade.